Protocolo que prevê aplicações a cada 15 dias em cães doentes é questionado por Mary Marcondes, presidente do Comitê de Vacinações da WSAVA

A vacinação é uma das principais ferramentas de prevenção de doenças infecciosas, mas seu uso não deve ser confundido com o tratamento de uma infecção já instalada. A cinomose, doença viral que pode comprometer diferentes sistemas do organismo, inclusive o neurológico, exige avaliação clínica individualizada e acompanhamento médico-veterinário.
A aplicação repetida de vacinas contra a cinomose em cães já infectados, como tentativa de combater a doença, foi questionada por Mary Marcondes, presidente do Comitê de Vacinações da Associação Mundial de Veterinários de Pequenos Animais (WSAVA). Em vídeo publicado nas redes sociais, a especialista critica um protocolo que prevê aplicações a cada 15 dias, com sete doses ou mais, e defende que recomendações terapêuticas sejam sustentadas por evidências científicas.
Docente aposentada de Clínica Médica e Enfermidades Infecciosas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Mary afirma ter recebido mensagens de médicos-veterinários que relataram seguir esse tipo de protocolo após terem tido contato com a conduta em congressos da área.
“Qualquer um de nós, médico-veterinário, pode errar. Eu já cometi erros, já falei coisas erradas, mas fui estudar e aprendi. A gente tenta melhorar. Mas ensinar num congresso um protocolo terapêutico desse tipo é absurdo. Você só vai para um congresso ministrar uma palestra se tem embasamento científico para tal”, afirma.
No vídeo, Mary aborda a resposta imunológica como um dos pontos centrais para explicar por que a vacinação não deve ser apresentada como tratamento da cinomose. As vacinas mais utilizadas contra o vírus são produzidas com vírus vivos modificados e têm como objetivo estimular o sistema imunológico a desenvolver proteção contra a infecção.
Segundo a especialista, em animais que já desenvolveram a doença, a presença de anticorpos específicos pode interferir na ação do imunizante. Por isso, a administração de novas doses não deve ser considerada, por si só, uma estratégia comprovada para combater a infecção já estabelecida.
“Se um animal já tem a doença e já tem anticorpos contra essa doença, esses anticorpos bloquearão a vacina. O sistema imune não distingue o que é um vírus vacinal ou um vírus de campo. Ele vai agir, e essa vacina não vai produzir resposta imune nenhuma”, explica.
A especialista também questiona a repetição das aplicações em animais sem anticorpos detectáveis, argumentando que doses sucessivas não devem ser presumidas como capazes de oferecer benefício terapêutico adicional. A indicação de vacinação, ressalta-se, precisa considerar o estado clínico do animal, o histórico vacinal e a avaliação do médico-veterinário responsável.
O Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio de Janeiro (CRMV-RJ) reforça a importância de que decisões clínicas sejam fundamentadas em evidências científicas e adequadas às condições de cada paciente. A adoção de protocolos terapêuticos sem respaldo técnico pode comprometer a escolha das condutas mais apropriadas e reforça a necessidade de atualização profissional e consulta a diretrizes reconhecidas.
O Conselho também destaca a responsabilidade na divulgação de informações em congressos, cursos e redes sociais. Recomendações apresentadas como protocolos terapêuticos devem ter fundamentação científica consistente e ser avaliadas criticamente antes de incorporadas à rotina clínica. A disseminação de informações qualificadas é essencial para orientar a atuação dos médicos-veterinários e contribuir para a saúde e o bem-estar animal.
