Por que o El Niño também é uma preocupação da Medicina Veterinária

Com previsão de permanência do fenômeno ao longo do segundo semestre, profissionais alertam para possíveis impactos na saúde animal, produção agropecuária, fauna silvestre e gestão de desastres

As águas do Oceano Pacífico Equatorial voltaram a aquecer e reacenderam o alerta para os impactos do El Niño no Brasil. Fenômeno natural do Oceano Pacífico tropical, ele é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas na faixa equatorial, capaz de influenciar o clima em diferentes regiões do mundo.

O Boletim Agroclimatológico do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mostra que, entre os dias 16 e 30 de junho de 2026, foram registradas anomalias positivas da temperatura da superfície do mar entre 1°C e 3°C em grande parte do Pacífico Equatorial, alcançando até 4°C próximo à costa oeste da América do Sul. Em junho, o Índice Oceânico Niño Relativo (Roni) atingiu +1,06 — acima do limiar de +0,5 utilizado para caracterizar a fase quente do fenômeno —, reforçando a configuração compatível com o El Niño. A previsão dos principais centros internacionais de monitoramento climático é de alta probabilidade de permanência desse cenário durante o segundo semestre de 2026.

O monitoramento oceânico mais recente confirma que o El Niño de 2026/2027 está se desenvolvendo abaixo da superfície do oceano. Novas simulações de modelos conjuntos dos Centros de Clima da Europa (ECMWF), Estados Unidos (NOAA) e da Austrália (BOM) convergem para uma trajetória de alto impacto, com várias previsões sugerindo que o evento poderá se tornar o El Niño mais forte da história moderna, potencialmente superando o evento recorde de 1877/1878.

Para muitas pessoas, o El Niño costuma ser percebido apenas pelo aumento das temperaturas, ocorrências de ondas de calor e de mudanças no regime de chuvas. No entanto, seus efeitos se combinam com outras condições, impactando a saúde de forma direta ou indireta.

As alterações no clima podem comprometer a produção agropecuária e da vegetação natural, reduzindo a disponibilidade de alimentos para humanos e não-humanos, alterar a distribuição de vetores de doenças e de ocorrência de microrganismos patogênicos, favorecendo a ocorrência de doenças, impactar a fauna silvestre, reduzir a disponibilidade e comprometer a qualidade da água e aumentar o risco de eventos extremos, como secas, enchentes, incêndios florestais e deslizamentos, agravar condições orgânicas de origem não infecciosa, como hipertensão, infartos e quadros respiratórios, entre outros. Em todos esses cenários, a Medicina Veterinária desempenha um papel essencial na proteção da saúde animal, da saúde pública e ambiental, considerando, inclusive, a interdependência entre estas.

Isso porque a atuação do médico-veterinário vai muito além do atendimento clínico aos animais domésticos. O profissional participa da vigilância epidemiológica, da produção animal, da inspeção de alimentos, da conservação da fauna silvestre e das ações de prevenção e resposta a desastres, tornando-se um agente estratégico diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas.

Esta atuação é estratégica também ao se considerar o conceito ampliado de saúde, posto não a restringir a ausência de doenças, mas compreendendo que o bem-estar físico e mental de pessoas e animais não depende unicamente dos fatores biológicos, resultando de suas condições de vida. Nesse contexto, as vulnerabilidades socioambientais impactam diretamente a saúde humana e repercutem em graus variáveis sobre a saúde e bem-estar animal, sejam esses domésticos ou silvestres.

Coautora do capítulo seis, intitulado “Oceanos e Zonas Costeiras”, da obra Mudanças Climáticas no Brasil: Estado da Arte e Fronteiras do Conhecimento, publicada pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a médica-veterinária Carla de Freitas Campos (CRMV-RJ nº 5240), membro da Comissão de Gestão de Riscos de Animais em Desastres do CRMV-RJ, explica que os impactos das mudanças climáticas extrapolam as questões ambientais e representam um desafio crescente para a saúde animal, a saúde humana e a conservação da biodiversidade.

“Os eventos climáticos extremos alteram ecossistemas, afetam a disponibilidade de recursos naturais, modificam a distribuição de vetores e ampliam a vulnerabilidade de animais domésticos, de produção e da fauna silvestre. Quando falamos de mudanças climáticas, falamos também de saúde pública, segurança dos alimentos e Uma Só Saúde”, declarou.

Ela ainda concluiu explicando que o papel da Medicina Veterinária é estratégico, especialmente por sua característica transdisciplinar e integradora, tanto na prevenção quanto na adaptação a esses novos cenários.

“Precisamos ter em mente, ainda, que aqueles que vivem em condições de vulnerabilidade também são os afetados primeiro e mais acentuadamente pelas mudanças climáticas e ambientais, o que inclui os animais. As questões sociais e socioambientais atuam, de forma cada vez mais evidente, na determinação da saúde. Esse olhar extrapola a questão da empatia, devendo permear as políticas públicas para a saúde coletiva”, concluiu.

De fato, a relação entre clima e saúde deixou de ser uma preocupação restrita aos centros de pesquisa. A Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) e a comunidade científica vêm alertando que o aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos extremos pode favorecer a expansão de doenças transmitidas por vetores, comprometer a segurança dos alimentos, intensificar o estresse térmico em diferentes espécies e ampliar a ocorrência de desastres com impactos diretos sobre pessoas, animais e ecossistemas.

Nesse contexto, acompanhar os prognósticos climáticos deixou de ser uma tarefa exclusiva da Meteorologia. Para médicos-veterinários, produtores rurais e gestores públicos, essas informações tornaram-se ferramentas fundamentais para antecipar riscos, orientar medidas preventivas e fortalecer a capacidade de resposta diante de um clima cada vez mais desafiador, que requer atuações integradas entre os setores, de forma transdisciplinar.

No Estado do Rio de Janeiro, onde eventos como chuvas intensas, deslizamentos de encostas e ondas de calor têm provocado impactos recorrentes nos últimos anos, esse planejamento ganha ainda mais importância, demonstrando na prática a necessidade dessa integração entre órgãos públicos, instituições de pesquisa e sociedade.

Impactos para o agro: produção animal também sente os efeitos do El Niño

 

A agropecuária está entre as atividades mais sensíveis às alterações do clima, e os reflexos do fenômeno vão muito além das lavouras. A disponibilidade de água, a qualidade das pastagens, o conforto térmico dos animais, a incidência de doenças e até a produtividade dos rebanhos podem ser diretamente influenciados pelas mudanças no regime de chuvas e nas temperaturas.

De acordo com o Boletim Agroclimatológico do Inmet, durante os episódios de El Niño, as regiões Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste e Sudeste tendem a registrar redução das chuvas e maior frequência de estiagens, comprometendo a disponibilidade hídrica e elevando o risco de perdas em sistemas agrícolas de sequeiro. Já na Região Sul, o fenômeno costuma provocar chuvas acima da média, principalmente entre o inverno e a primavera, favorecendo o encharcamento do solo, dificultando o manejo das culturas e aumentando a ocorrência de doenças fúngicas.

Embora o boletim destaque os efeitos sobre as principais culturas agrícolas, os impactos se estendem à pecuária. A redução da oferta de pastagens durante períodos de seca pode comprometer a alimentação dos rebanhos, enquanto as temperaturas elevadas favorecem o estresse térmico, reduzindo o consumo de alimento, a produção de leite, o ganho de peso e o desempenho reprodutivo dos animais. Em contrapartida, o excesso de chuvas pode degradar pastagens, dificultar o acesso dos animais aos piquetes, favorecer a proliferação de parasitas e aumentar a incidência de enfermidades relacionadas à umidade.

A presidente da Comissão de Agropecuária e Agroindústria, Juliana da Silva Virginio (CRMV-RJ 14857) destacou que a Medicina Veterinária tem papel central nesse processo, contribuindo para a saúde e o bem-estar dos animais, a segurança dos alimentos e a sustentabilidade da produção.

“As mudanças climáticas exigem que a produção animal incorpore estratégias de adaptação capazes de reduzir vulnerabilidades e aumentar a resiliência dos sistemas produtivos. Isso inclui planejamento do uso da água, manejo adequado das pastagens, adoção de medidas para minimizar o estresse térmico, vigilância constante para doenças e integração entre diferentes áreas do conhecimento”, disse.

O cenário exige atenção especial porque os efeitos do El Niño variam entre as regiões do país. Segundo o INMET, caso a previsão de permanência do fenômeno se confirme, sua influência deverá ser mais significativa no final do inverno e durante a primavera de 2026, período decisivo para diversas culturas agrícolas e para o planejamento da produção pecuária. A intensidade dos impactos, no entanto, dependerá também de outros fatores climáticos, como a temperatura da superfície do Oceano Atlântico e a força do próprio fenômeno.

Mais do que responder às consequências do clima extremo, a representante do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio de Janeiro (CRMV-RJ) destaca que a adaptação deve começar antes que elas ocorram.

“Acompanhamento meteorológico, planejamento sanitário, manejo nutricional, oferta adequada de água e sombra, monitoramento epidemiológico e assistência veterinária permanente são algumas das estratégias capazes de reduzir perdas e proteger tanto a produção quanto o bem-estar dos animais”, concluiu a profissional.

Ondas de calor exigem atenção redobrada com os animais

 

Um dos efeitos mais conhecidos do El Niño é o aumento da frequência e da intensidade das ondas de calor. Para os animais, as altas temperaturas representam mais do que desconforto: podem provocar desidratação, estresse térmico, redução da imunidade e, nos casos mais graves, levar à morte. Os impactos atingem tanto animais de companhia quanto de produção e espécies silvestres.

Membro da Comissão de Gestão de Riscos de Animais em Desastres do CRMV-RJ, o médico-veterinário Flavio Fernando Batista Moutinho (CRMV-RJ nº 5495) alerta que a prevenção é a principal aliada para evitar complicações durante os períodos mais quentes.

“A água deve estar sempre limpa, fresca e disponível. Também é fundamental oferecer locais sombreados e bem ventilados, evitar passeios e atividades físicas nos horários de maior calor e nunca deixar animais dentro de veículos fechados, mesmo por poucos minutos”, explicou.

Ele ainda explicou que o problema não está apenas nas altas temperaturas, já que a baixa umidade relativa do ar também representa um risco para a saúde dos animais, tornando ainda mais importante reforçar a hidratação e evitar atividades físicas, principalmente durante a tarde, quando a umidade costuma atingir os menores índices do dia.

“Ao perceber sinais como respiração ofegante excessiva, apatia, dificuldade para caminhar ou salivação intensa, o tutor deve procurar atendimento veterinário imediatamente. Quando a umidade relativa do ar fica abaixo de 30%, entramos em estado de atenção e os cuidados devem ser redobrados”, emendou.

Segundo o médico-veterinário, alguns animais são ainda mais vulneráveis às altas temperaturas, como filhotes, idosos, obesos, pacientes com doenças cardíacas ou respiratórias, seguindo o padrão conhecido para humanos, e cães braquicefálicos, como buldogues, pugs e shih-tzus, que apresentam maior dificuldade para dissipar o calor.

Na produção animal, o estresse térmico também preocupa. Temperaturas elevadas podem reduzir o consumo de alimentos, comprometer o ganho de peso, a produção de leite e a fertilidade dos rebanhos. Medidas como oferta permanente de água, áreas de sombra, ventilação adequada e manejo nos horários mais amenos ajudam a minimizar esses impactos e contribuem para o bem-estar dos animais.

Gestão de riscos: quando proteger os animais também faz parte da resposta aos desastres

 

Enchentes, deslizamentos, incêndios florestais, secas prolongadas e tempestades estão entre os eventos extremos cuja frequência e intensidade podem ser influenciadas por fenômenos climáticos como o El Niño. Nesses cenários, a atuação do médico-veterinário vai além do resgate de animais. O profissional participa do planejamento das ações de resposta, da vigilância de zoonoses, da avaliação sanitária, do manejo de animais domésticos, de produção e silvestres, além de contribuir para a proteção da saúde pública e da recuperação das áreas afetadas.

No CRMV-RJ, esse trabalho é desenvolvido pela Comissão de Gestão de Riscos de Animais em Desastres, que atua na promoção de ações de prevenção, capacitação e orientação técnica para médicos-veterinários e demais profissionais envolvidos em situações de emergência.

Para o presidente da Comissão de Gestão de Riscos de Animais em Desastres e da Comissão de Meio Ambiente do CRMV-RJ, José Eduardo Mayhe Ferreira (CRMV-RJ nº 8600), a atuação começa muito antes da ocorrência de um desastre.

“Quando falamos em gestão de riscos, estamos falando principalmente de prevenção. O desastre não começa quando a enchente ocorre ou quando o incêndio se inicia. Ele começa muito antes, quando não existe planejamento. Preparar profissionais, orientar gestores e integrar diferentes instituições é fundamental para reduzir os impactos sobre os animais, as pessoas e o meio ambiente”, declarou.

Segundo Mayhe, a presença do médico-veterinário nos planos de contingência é essencial, porque os animais fazem parte da dinâmica dos desastres e das doenças e sua proteção também contribui para reduzir riscos à saúde pública, além de ser um dever do Estado.

“Os animais não podem ser tratados como uma preocupação secundária durante uma emergência. O atendimento adequado aos animais domésticos, de produção e à fauna silvestre reduz riscos sanitários, preserva a segurança dos alimentos, evita a disseminação de doenças e fortalece a recuperação das comunidades afetadas. Essa é uma atuação que integra os princípios da Uma Só Saúde e demonstra a importância da Medicina Veterinária na construção de territórios mais resilientes”, disse.

Ele ainda destacou que as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 evidenciaram a importância da atuação coordenada dos médicos-veterinários no resgate, atendimento, acolhimento e manejo de milhares de animais domésticos, de produção e silvestres.

“Situações como essa demonstram que o planejamento para proteção animal também integra as estratégias de resposta humanitária e de saúde pública”, emendou.

À medida que eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes, especialistas defendem que a preparação deve caminhar ao lado da prevenção. Nesse cenário, a Medicina Veterinária reafirma seu papel estratégico não apenas na assistência aos animais, mas também na construção de comunidades mais resilientes, capazes de enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas com planejamento, conhecimento técnico e atuação integrada.

Se antes a Medicina Veterinária era lembrada principalmente pelo cuidado com os animais, as mudanças climáticas evidenciam que sua atuação também é fundamental para proteger a saúde pública, preservar ecossistemas e contribuir para a segurança alimentar. Em um cenário de eventos extremos cada vez mais frequentes, preparar-se deixou de ser apenas uma medida preventiva: tornou-se uma estratégia essencial para reduzir riscos, salvar vidas e construir comunidades mais resilientes.

“Mais do que responder às emergências, a profissão tem um papel cada vez mais estratégico na prevenção e na construção de um futuro mais resiliente”, concluiu Mayhe.

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