A Fundação Municipal de Saúde de Niterói confirmou que um morcego encontrado morto em Vale Feliz, no bairro Engenho do Mato, estava infectado pelo vírus da raiva. O laudo positivo, divulgado em 29 de janeiro, mostra que o vírus continua circulando no município, embora os casos em cães e gatos estejam controlados há mais de vinte anos.
O animal, identificado como pertencente à família Vespertilionidae, composta por espécies principalmente insetívoras, foi submetido a exames laboratoriais que apontaram resultado positivo. Desde 2020, a cidade registrou oito episódios de raiva em morcegos, e registros em municípios vizinhos como Duque de Caxias (2021) e Maricá (dezembro de 2022) reforçam a necessidade de vigilância constante.
Os quirópteros são os únicos mamíferos de voo verdadeiro e prestam inúmeros serviços ecológicos — dispersam sementes, polinizam flores e controlam pragas agrícolas e vetores de doenças — trazendo mais benefícios que incômodos. A presença do vírus em alguns indivíduos não deve levar à perseguição desses animais, mas reforçar a necessidade de biossegurança e de informar apenas profissionais capacitados.
Segundo o CCZ, a raiva é uma doença viral gravíssima que causa encefalite aguda e tem letalidade próxima a 100%. A enfermidade é transmitida exclusivamente entre mamíferos e, tradicionalmente, cães e gatos foram os principais reservatórios urbanos. No entanto, há uma mudança epidemiológica no município e os morcegos vêm ganhando protagonismo como fonte de infecção. O vírus é inoculado principalmente pela mordedura de um animal infectado, mas arranhaduras e lambeduras também podem transmitir a doença. Os morcegos infectados podem albergar o vírus na saliva por longos períodos sem apresentar sintomas e, quando doentes, ficam incapacitados de voar, o que aumenta a chance de contato com cães e gatos.
Para reduzir o risco de transmissão, o CCZ recomenda que a população não toque em morcegos ou outros animais silvestres e acione imediatamente o órgão pelo telefone (21) 99639‑4251 ao encontrar um animal doente ou morto. Nos fins de semana e feriados, o contato deve ser feito com a Guarda Ambiental pelo 153. Também é fundamental manter cães e gatos vacinados a partir de três meses de idade; Niterói oferece postos fixos de imunização durante o ano na sede do CCZ, no Horto do Fonseca e na Administração Regional de Maravista/Serra Grande/Engenho do Mato. Caso um animal de estimação tenha contato com um morcego, o responsável deve comunicar o CCZ; a conduta poderá incluir eutanásia ou observação em isolamento por 180 dias, com esquema vacinal específico. A recomendação estende‑se a procurar atendimento em unidades de saúde em casos de acidentes e a evitar o consumo ou manuseio de carcaças de animais suspeitos.
Pessoas que lidam frequentemente com animais, como médicos‑veterinários e zootecnistas, estudantes e profissionais envolvidos em captura e manejo de mamíferos silvestres, devem receber a vacinação pré‑exposição. O Ministério da Saúde orienta um esquema de duas doses da vacina antirrábica (inativada) nos dias 0 e 7, por via intradérmica ou intramuscular. Além de proteger contra a doença, a imunização facilita o tratamento pós‑exposição, reduzindo o número de doses necessárias e dispensando o uso de soro ou imunoglobulina.
A notificação de um caso em morcego reforça a necessidade de medidas de biossegurança e vacinação, preservando a saúde pública sem prejudicar a conservação dessas espécies. Com base nos relatos de entraves burocráticos para acessar a vacinação pré‑exposição nas unidades de saúde, o Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio de Janeiro (CRMV‑RJ) encaminhou um ofício à prefeitura de Niterói pedindo a desburocratização desse serviço.
Para o presidente do CRMV‑RJ, Diogo Alves, é inadmissível que profissionais e estudantes expostos a riscos encontrem barreiras para se imunizar: “A burocracia não pode se sobrepor à proteção da vida”.
O Conselho se colocou à disposição para colaborar na definição de fluxos e documentação e defende a ampliação da vacina pré‑exposição como medida de saúde pública.
Casos como o registrado em Engenho do Mato reforçam a necessidade de uma abordagem integrada entre saúde humana, animal e ambiental. O controle da raiva depende da vigilância ativa de animais silvestres, da vacinação de cães e gatos, da proteção dos profissionais que manejam animais e da orientação permanente à população. Ao cobrar a desburocratização da profilaxia pré‑exposição e enfatizar a importância da imunização, o CRMV‑RJ atua em consonância com o conceito de Uma Só Saúde, que reconhece que a saúde dos animais, das pessoas e do meio ambiente está interligada.
Isso é Saúde Pública. Isso é uma Só Saúde.
