
O aumento de casos de Mpox, dengue e outras doenças infecciosas reforça a importância da vigilância em saúde pública e evidencia o papel estratégico do médico-veterinário nesse cenário. Muitas dessas enfermidades estão relacionadas à interação entre seres humanos, animais e meio ambiente, o que exige uma abordagem integrada baseada no conceito de Saúde Única (One Health).
As zoonoses são doenças que podem ser transmitidas entre animais e seres humanos e representam um desafio permanente para os sistemas de saúde. Além da Mpox, o Brasil convive historicamente com outras enfermidades relevantes, como leptospirose, raiva, leishmaniose, febre maculosa e toxoplasmose. Já a dengue, por sua vez, é classificada como uma arbovirose transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, o que demanda ações contínuas de vigilância ambiental e controle de vetores.
A formação do médico-veterinário inclui conhecimentos em epidemiologia, microbiologia, parasitologia, saúde coletiva, inspeção sanitária e bem-estar animal, o que o habilita a atuar na prevenção, no monitoramento e no controle de doenças que impactam tanto a saúde humana quanto a saúde animal. Esse profissional integra equipes multiprofissionais de vigilância epidemiológica, vigilância sanitária e programas de controle de zoonoses em diferentes níveis da administração pública.
Entre as principais atribuições do médico-veterinário na saúde pública está a identificação precoce de surtos, a investigação de possíveis fontes de infecção e a orientação técnica à população. A atuação envolve desde o acompanhamento clínico de animais com suspeita de doenças infecciosas até a participação em campanhas de vacinação, controle populacional de animais e fiscalização de estabelecimentos que comercializam produtos de origem animal.
No caso da Mpox, é fundamental evitar a estigmatização ou o abandono de animais. A Medicina Veterinária atua na orientação correta sobre os riscos reais de transmissão, no manejo clínico adequado e na comunicação responsável, combatendo a desinformação e prevenindo atitudes que possam gerar sofrimento animal ou novos problemas sanitários.
No enfrentamento da dengue, embora não se trate de uma zoonose, o controle ambiental é decisivo para reduzir a proliferação do vetor. O médico-veterinário contribui tecnicamente para ações de saneamento, educação em saúde, vigilância de áreas de risco e monitoramento de fatores ambientais que favorecem a presença do mosquito, como o acúmulo de água parada e o descarte inadequado de resíduos.
Nesse contexto, a atuação do médico-veterinário nas políticas públicas depende diretamente do compromisso de prefeituras e governos estaduais com a Saúde Única. A presença desse profissional nas equipes de vigilância em saúde, controle de zoonoses, vigilância ambiental e inspeção sanitária é fundamental para a prevenção de surtos e para a resposta rápida a emergências sanitárias. A contratação de médicos-veterinários pelos entes públicos fortalece a integração entre saúde humana, saúde animal e meio ambiente, ampliando a capacidade técnica dos municípios e garantindo ações mais eficazes na proteção da população.
A atuação profissional também se estende à segurança dos alimentos de origem animal. A inspeção sanitária de carnes, leite, ovos e derivados é uma das frentes mais relevantes para evitar a transmissão de doenças por meio da alimentação, protegendo a população de agentes patogênicos como Salmonella, Brucella e Listeria. Esse trabalho preventivo integra as políticas públicas de saúde e contribui para a redução de riscos sanitários.
Do ponto de vista legal e ético, o exercício da Medicina Veterinária na área de saúde pública está amparado por normas que reconhecem o profissional como agente essencial na proteção da sociedade. O Código de Ética do Médico-Veterinário estabelece como dever do profissional atuar em benefício da saúde coletiva, do bem-estar animal e da qualidade de vida da população, sempre com base em princípios científicos e responsabilidade social.
Para o CRMV-RJ, a vigilância em saúde pública não se limita ao atendimento clínico individual, mas envolve ações contínuas de prevenção, educação e fiscalização. A integração entre médicos-veterinários, profissionais da saúde humana e órgãos ambientais é indispensável para enfrentar os desafios sanitários contemporâneos, especialmente diante do aumento de doenças infecciosas e das mudanças ambientais que favorecem a circulação de agentes patogênicos.
Nesse contexto, o papel do médico-veterinário é estratégico para antecipar riscos, reduzir a circulação de agentes infecciosos e orientar a sociedade sobre práticas seguras de convivência com os animais e com o ambiente. A presença desse profissional nas políticas públicas fortalece a capacidade de resposta diante de surtos e contribui para a construção de um sistema de saúde mais preventivo e eficiente.
Em um cenário de expansão urbana, alterações climáticas e maior mobilidade populacional, a vigilância em saúde pública torna-se cada vez mais complexa. O médico-veterinário, com sua formação técnica e científica, atua como elo entre a saúde animal, a saúde humana e o meio ambiente, sendo peça-chave na proteção da sociedade frente às doenças que ultrapassam as barreiras entre espécies e vetores.
