
A perda de um animal de estimação é uma experiência que pode provocar dor profunda, comparável à perda de um ente querido. Ainda assim, esse tipo de luto permanece cercado por silêncio, constrangimento e deslegitimação social. Para muitas pessoas, o pet não apenas compartilha o lar, mas faz parte da rotina, da história familiar e da saúde emocional. Quando esse vínculo é rompido, o impacto psicológico é real — embora frequentemente minimizado pela sociedade.
O que para muitos é visto como “exagero”, a ciência já reconhece como um processo de luto legítimo, com impactos reais sobre a saúde mental. Estudos científicos já mostraram que o luto por um animal de companhia pode atingir níveis de sofrimento semelhantes aos observados após a perda de familiares humanos. O estudo “The Impact of Continuing Bonds Between Pet Owners and Their Pets Following the Death of Their Pet: A Systematic Narrative Synthesis” (ou ‘O impacto dos vínculos contínuos entre tutores de animais de estimação e seus animais após a morte do pet: uma síntese narrativa sistemática’, em tradução livre), publicado pela PubMed Central, identificou sintomas como tristeza intensa, culpa, alterações no sono e isolamento social em pessoas que perderam seus pets.
Outro aspecto amplamente descrito na literatura científica é o chamado “luto deslegitimado”, quando a sociedade não reconhece aquela perda como digna de luto. Uma revisão publicada na base PubMed, intitulada “Coping with Animal Companion Loss: A Thematic Analysis of Pet Bereavement Counselling” (ou ‘Lidando com a perda de um animal companheiro: uma análise temática do aconselhamento em luto por pets’, em tradução livre), aponta que a falta de validação social agrava o sofrimento psicológico e dificulta a elaboração saudável da perda.
Na prática, isso se traduz em frases que machucam, como “era só um cachorro” ou “compra outro”, além da ausência de espaços acolhedores para viver esse luto. Muitas pessoas acabam sofrendo em silêncio, com vergonha de demonstrar a dor ou receio do julgamento, o que pode favorecer quadros de ansiedade, depressão e isolamento.
Para a médica-veterinária Andrea Marinho, presidente da Comissão de Cuidados da Saúde Mental do CRMV-RJ, é preciso romper com esse estigma.
“A dor pela perda de um animal de estimação nasce do amor construído no vínculo cotidiano. Tal laço é único e profundamente significativo na história de cada pessoa. Como diz Colin Murray Parkes, ‘o luto é o preço que se paga pelo amor’. Quando o vínculo se rompe, a dor é real e portanto merece ser reconhecida e respeitada, nunca diminuída ou ridicularizada. Cada pessoa tem o direito de viver o seu luto de maneira digna, no seu tempo e com o apoio adequado”, afirma.
Segundo ela, os médicos-veterinários também têm papel essencial nesse processo.
“O médico-veterinário acompanha a vida do animal e participa das muitas histórias que são tecidas ao redor dele. São histórias de cuidado, convivência e profundo sentido. Por isso, quando chega o momento da despedida, nosso papel exige sensibilidade e preparo: oferecer escuta, empatia e orientação que ajudem o tutor a atravessar essa experiência com dignidade. Cuidar de quem sofre pela perda de um animal é também parte da nossa responsabilidade ética e humana”, completa.
Falar sobre o luto por um animal de estimação ainda é tabu porque a sociedade insiste em hierarquizar as dores. No entanto, a ciência já deixou claro que esse sofrimento é legítimo e merece ser reconhecido. Dar visibilidade a esse tema é um passo importante para construir uma cultura mais empática, que respeite o vínculo humano-animal e o direito de viver o luto sem constrangimento.
