Inserção da mulher no Exército Brasileiro completa 30 anos

Exército Brasileiro celebra 30 anos da presença feminina na Força

Em 1992, inseriu-se pela primeira vez pessoas do sexo feminino no quadro do Exército Brasileiro. O fato histórico completou 30 anos neste mês de abril. O mesmo ano ainda marcou o retorno dos médicos-veterinários de carreira a esta Força Armada. Isso porque, desde a extinção (na década de 80) da Escola de Veterinária do Exército, somente médicos-veterinários temporários desempenhavam esta função.

O CRMV-RJ conversou com as três primeiras médicas-veterinárias que entraram no Quadro Complementar de Oficiais de 1992, do Exército Brasileiro, que são: Tenente Coronel Marcia Helena Martins Panizzutti (CRMV-RJ 3266); Coronel Joana Mara Carvalho de Carvalho (CRMV-RJ 4.309); e Coronel Beatriz Helena Felício Fuck Telles Ferreira (CRMV-RJ 8692).

A Major Veterinária Jacqueline Roberta Soares Salgado (CRMV-RJ 5333), que é presidente da Comissão Estadual de Biotecnologia e Biossegurança do CRMV-RJ, também fez parte da entrevista.

Jacqueline
Major Jacqueline

Veja a entrevista:

  • A senhora foi uma das primeiras médicas-veterinárias de carreira do Exército. Como foi integrar o Exército sendo mulher na área da Medicina Veterinária?

Beatriz Helena:

“Houve muitos desafios. Como foi a primeira turma [com mulheres], houve aquela cobrança. Os instrutores sempre nos falavam: “Olha, o bom desempenho de vocês vai assegurar que continue tendo mulheres no Exército. Vocês são um laboratório, o Exército está experimentando e vocês precisam corresponder as expectativas”. Havia muita cobrança, mas foi uma grande honra, uma benção, foi uma fase muito boa. Eu era recém-formada, estava sem muita perspectiva. Eu trabalhava em um hospital veterinário, com uma carga de trabalho bem intensa e mal remunerada. Passar nesse concurso foi muito bom. Aconteceu uma série de coisas, tivemos um curso de formação na Bahia, que foi uma época bacana onde estabelecemos laços profissionais e de amizade; tivemos a oportunidade de conhecer o que o Exército desejava do veterinário, em qual campo a gente atuaria; e visitamos várias organizações militares onde os veterinários trabalhavam para ver o que eles faziam para a gente aprender a ser um veterinário militar.

Joana Mara:

Foi uma experiência única e muito desafiadora. Compuz a primeira turma com efetivo feminino do Exército, e com os problemas que fomos enfrentando várias mudanças foram sendo implementadas, desde os uniformes até às atividades físicas.

Marcia Helena:

Nossa turma, do Quadro Complementar de Oficiais de 1992 foi a pioneira, pois pela primeira vez mulheres puderam prestar o concurso. E no final do ano, saímos 1º Tenente, com todas as obrigações e direitos dos Oficiais de arma formados na Aman.


  • Qual a sua atuação dentro do Exército e qual a importância dos médicos-veterinários dentro desta força?

Beatriz Helena:

Meu sonho quando entrei no Exército era trabalhar com equinos. Eu monto desde criança e gosto muito de cavalos. Mas na minha carreira eu praticamente não trabalhei com cavalos, apesar do efetivo enorme de equinos no Exército em várias organizações militares. Eu atuei com a inspeção de alimentos, que era uma área que não tive interesse durante a faculdade, trabalhei porque houve essa demanda no Exército, mas graças a Deus foi um aprendizado muito legal e no final eu fui muito feliz, apesar de não ter acontecido o que eu tinha sonhado e planejado, foi muito interessante trabalhar com essa parte de inspeção de alimentos. Também tive a oportunidade de trabalhar na Vigilância Sanitária da Força, com essa parte de segurança dos alimentos. Coroei minha carreira no Ministério da Defesa, trabalhando justamente com a Defesa Alimentar. Tive a oportunidade de me desenvolver profissionalmente, tive a chance de fazer um mestrado, fiz muitos cursos nessa área, fui muito feliz. Hoje, com a maturidade que eu tenho, teria aproveitado melhor as matérias que lidavam com essa parte de alimentos na faculdade. A Medicina Veterinária ela é indispensável para a força terrestre, pois se lida com grandes efetivos, com uma enormidade de alimentos manipulados, não tem a menor condição do Exército terceirizar esse serviço, então precisamos formar os nossos quadros, capacitar o nosso pessoal para lidar bem com transporte, armazenamento, manipulação, preparo e distribuição de alimentos. O médicos-veterinário foi talhado para isso, é fundamental nesse processo. Não é o único profissional que o Exército emprega na cadeia de suprimentos, mas são equipes multidisciplinares, há muito trabalho para fazer e toda ajuda especializada é muito bem-vinda. Sempre falo para os médicos-veterinários que estão começando suas carreiras que a clínica veterinária é linda, a gente adora animal, com certeza todo mundo que faz veterinária em algum momento pensou na clínica, mas eu digo: pensem na inspeção de alimentos, porque todo mundo precisa comer várias vezes por dia e esse alimento precisa chegar seguro nas pessoas, e o médico-veterinário atua em todos os elos da cadeia de suprimentos, desde o campo, na produção segura de alimentos, até na cozinha fazendo a Vigilância Sanitária para que esses alimentos sejam preparados nas melhores condições, distribuídos e armazenados.

Joana Mara:

Minha primeira unidade após a formação militar na antiga Escola de Administração do Exército, foi a Escola de Equitação do Exército, onde fiquei até fevereiro de 1994. Nesta OM fui muito bem recebida, mas por ser, até o momento, um efetivo apenas masculino, minha chegada causou alguns transtornos, como alojamento e o culote feminino que não previram no Regulamento de Uniformes do Exército. Dentro da área da Medicina Veterinária, como minha especialidade era na clínica de equinos, não tive problemas em me impor, apesar de ser muito mais questionada que meus companheiros médicos-veterinários do sexo masculino. De 1994 a 1996, servi no extinto 14° Deposito de Suprimento, onde atuei na distribuição de material de saúde e veterinária para as Unidades da 1° Região Militar e para as Missões de Paz do Exército. Em março de 1996, fui transferida para o Instituto de Biologia do Exército, onde fiquei até janeiro de 2018. Nesta OM fui Chefe da Divisão Veterinária, onde realizavamos a produção do plasma hiperimune equino, substrato dos soros antipeçonhentos ofidicos, aracnídicos e escorpionicos. Também chefiei a Divisão de Ensino e Pesquisa, onde criei dois cursos de especialização para médicos-veterinários do Exército e dois para sargentos de Saúde apoiarem os médicos-veterinários. Também, com a minha equipe multiprofissional, atuamos na área de defesa biológica na Copa do Mundo de 2014 e no Jogos Olímpicos de 2016. Em fevereiro de 2018 fui transferida para o Hospital Central do Exército, onde estou até os dias de hoje e atuo na Subdivisão de Apoio da Divisão de Ensino e Pesquisa, nas atividades de apoio dos cursos de especialização médica, de enfermagem e multiprofissional desta OMS. Vejo nossa profissão como de suma importância para o Exército Brasileiro, pois somos responsáveis pela higidez dos animais de emprego militar, pela inspeção dos alimentos distribuídos à tropa, pelo controle de vetores e do meio ambiente das Unidades do Exército e por integrar equipes de defesa biológica.

Marcia Helena:

Atuei em diversas funções específicas dos médicos-veterinários. Fui responsável pelo zoológico do Centro de Instrução de Guerra na Selva , CIGS, e Manaus. Depois compus como médica-veterinária, junto aos médicos e farmacêuticos, a equipe de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Central do Exército, focando principalmente no controle de vetores. Logo após fui transferida para o Instituto de Biologia do Exército (IBEx) e atuei por mais de 12 anos como chefe da Seção de Serpentário. Recebíamos ofídios capturados em todo o país, usados na produção de soro antiofídico junto com o Instituto Butantan e para as instruções de ofidismo e prevenção de acidentes com animais peconhentos, ministradas aos militares das três Forças, bem como da Polícia Militar. Neste período, tive a oportunidade de fazer especialização latu sensu, mestrado e doutorado (este não concluído) em Biologia Parasitária, na Fiocruz. Retornei para Manaus, desta vez por quatro anos, a fim de implantar o projeto de um laboratório de pesquisas, extensão do IBEx. Como última função, fui sub diretora do Campo de Instrução de Juiz de Fora, onde passei para a reserva remunerada por completar meu tempo de serviço.

Jacqueline Roberta:

No momento eu atuo na área de Defesa Biologica. Os médicos-veterinários são importantes pois exercem funções estratégicas para a manutenção da higidez da tropa em tempos de paz e em termos de guerra. Então fazemos controle da qualidade dos alimentos, atividades de saúde pública, controle de vetores, pragas e zoonoses, controle meio ambiente, defesa biologica, clínica e cirugia de equinos e cães, entre outras atividades. Essas ações também são realizadas nas missões de Paz da ONU quando o Brasil está participando, cinomose exemplo no Haiti.


  • Como enxerga a inserção das médicas-veterinárias mulheres no Exército, visto que aconteceu há apenas 30 anos?

Beatriz Helena:

As pessoas falam muita coisa sobre o Exército, mas a minha experiência como médica-veterinária é de que o Exército não me vê como uma mulher, me vê como uma profissional e me coloca onde eu preciso estar. Eu acho isso interessante porque se fala tanto do preconceito que a mulher sofre em diversas áreas, com salários diferenciados com relação aos homens… Isso no Exército não acontece. Estamos muito bem inseridas, participando das equipes. Alguns subordinados algumas vezes quiseram me olhar diferente por ser mulher, tive essa experiência. Acho que o que está sendo estabelecido no Exército é essa importância do médico-veterinário, ainda há um pouco de sub utilização, temos colegas que não estão atuando na área, estão sub utilizados, mas graças a Deus essa não foi a minha experiência. Do primeiro dia do EB até o último eu sempre fui uma médica-veterinária, nunca fui desviada da função. Algumas vezes tive que atuar em outras frentes também, mas nunca fui retirada da Medicina Veterinária. A presença da mulher médica-veterinária está totalmente assegurada, não tem nenhum risco de não acontecer. O que a gente [médicos-veterinários] precisa é ocupar mais áreas dentro da força, atuar em algumas frentes que as pessoas não lembram da gente, principalmente na Vigilância Epidemiológica, a gente ainda não está bem inserido neste contexto, creio que é uma área que a gente precise conquistar.

Joana Mara:

Quando entramos no Exército encontramos algumas barreiras, pois estávamos entrando em um ambiente eminentemente masculino, e muitos eram contra a inserção da mulher no Exército. Então tivemos que ir nos impondo pela nossa competência e éramos muito poucas mulheres no EB e menos ainda, médicas-veterinárias. Em 1996, entraram mulheres na Escola de Saúde do Exército e no Instituto Militar de Engenharia, então, devagar, o efetivo feminino foi aumentando no EB e hoje já somos muitas e basicamente, não encontramos mais problemas.

Marcia Helena:

O Exército Brasileiro foi a última Força a inserir mulheres nos seus quadros. Houve uma adaptação de ambos os lados, pois pioneirismo nem sempre é simples. Mas nada que a competência não superasse. Nestes 30 anos, as mulheres for inseridas em outras áreas, inclusive em 2021 formaram-se as primeiras mulheres como Oficias combatentes, na AMAN.

Jacqueline Roberta:

Acho que as oficiais veterinárias estão bem inseridas dentro dos objetivos estratégicos do Exército Brasileiro. Muitas ocupam cargos importante de assessoramento.


Como ingressar no Exército Brasileiro:

Existem duas formas de entrar para o Exército Brasileiro. Uma para ser oficial de carreira, onde você presta um concurso a nível nacional, com prova de conhecimento específico da área de atuação, inglês, português, história e geografia, depois exame físico e médico. Sendo aprovado(a) em todos os níveis, são preparados na Escola de Saúde e Formação Complementar (EsFCEx), em Salvador, onde receberá a formação militar durante 10 meses, depois por classificação, pode ir para qualquer Organização Militar em todo o Território Nacional e ser transferido(a) durante sua carreira, podendo atingir o posto de Coronel .

A segunda forma é para Oficial Temporário, a nível das Regiões Militares, onde você se inscreve e tem uma prova de currículo e depois escrita, exame médico e físico. Sendo aprovado(a) será designado(a) para uma das Unidades Militares daquela Região Militar e poderá ficar no Exército por até 8 anos.

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